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Autores modernistas da terceira fase (continuação)

Clarice Lispector

Clarice Lispector nasceu em Chechelnyk, pequena cidade na Ucrânia, em 10 de dezembro de 1920. Ainda criança, imigrou com a família para o Brasil, instalando-se em Maceió.

Foi romancista, contista, cronista, tradutora e jornalista. Estudou Direito. Casou-se com o embaixador Maury Gurgel Valente, como quem viveu por quinze anos em países como Itália, Suíça, Inglaterra, Estados Unidos, onde escreveu os seus primeiros livros.

Seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem, foi publicado em 1944, quando a autora tinha apenas 19 anos de idade. Por esta obra, conquistou o prêmio Graça Aranha.


Clarice Lispector, Chechelnyk (Ucrânia), 1920 – 1967


Obra Perto do Coração Selvagem

No ano de 1959, voltou a morar no Brasil e publicou alguns de seus livros principais, como Laços de Família (1960), A Paixão Segundo G.H. (1961), Água Viva (1973) e A Hora da Estrela (1977).


Obra Laços de Família

No Rio de Janeiro, atuou como jornalista no Jornal do Brasil, Correio da Manhã e Diário da Noite, escrevendo crônicas e artigos para o público feminino sobre comportamento, moda e beleza. No ano de 1967, a pedido de seu filho mais novo, escreveu um livro para crianças, O Mistério do Coelho Pensante.


Clarice Lispector com um de seus filhos

Clarice também adaptou para a língua portuguesa obras da literatura infanto-juvenil, como A Ilha Misteriosa, de Júlio Verne, e As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift. No ano de 1976, recebeu o primeiro prêmio do 10º Concurso Literário Nacional, de Brasília, pelo conjunto de sua obra. Recebeu ainda o prêmio Carmem Dolores pelo romance A Maçã no Escuro e o prêmio Calunga (da Companhia Nacional da Criança) pela obra infantil O Mistério do Coelho Pensante.

No ano de 1977, publicou seu último livro, A Hora da Estrela. Clarice Lispector faleceu no dia 9 de dezembro desse mesmo ano, devido a um câncer.


Obra A Hora da Estrela

Principais obras

Romances:  Perto do Coração Selvagem (1943); O Lustre (1946); A Cidade Sitiada (1949); A Mação no Escuro (1961); A Paixão Segundo GH (1964); Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (1969); Água Viva (1973); A Hora da Estrela (1977).


Clarice Lispector em sessão de autógrafos do livro A maçã no Escuro

Contos:  Alguns Contos (1952); Laços de Família (1960); A Legião Estrangeira (1964), contos e crônicas; Felicidade Clandestina (1971); A Imitação da Rosa (1973); A Via Crucis do Corpo (1974); Onde Estivestes de Noite? (1974); A Bela e a Fera (1979).


Obra A Legião Estrangeira

Crônicas e entrevistas:  De Corpo Inteiro (1975), entrevista; Visão do Esplendor (1975) crônicas; A Descoberta do Mundo (1984) crônicas.


Obra A Descoberta do Mundo

Infantil: O Mistério do Coelho Pensante (1967); A Mulher que Matou os Peixes (1969); A Vida Íntima de Laura (1973); Quase de Verdade (1978).


Obra O Mistério do Coelho Pensante

Vale a pena saber mais:

As obras de Clarice Lispector são marcadas  pelo intenso emprego da metáfora, fluxo da consciência (mergulho no seu interior) e o rompimento com o enredo. No conjunto, essa técnica colabora para a visitação do mundo interior das personagens, sempre manifestado pela subjetividade em crise.

A memória serve de fio condutor entre o subjetivo e o real, favorecendo a autoanálise. São as situações banais e cotidianas que desencadeiam em seus personagens esse "mergulho interior", que as conduz a ver de outra forma sua relação com o mundo. Tais características estão presentes em toda a sua obra.

Observe este trecho do romance A paixão segundo G.H., de 1964:

[...]
Na minha clausura entre a porta do armário e o pé da cama, eu ainda não tentara de novo mover os pés para sair, mas recuara o dorso para trás como, se mesmo na sua extrema lentidão, a barata pudesse dar um bote - eu já havia visto as baratas que de súbito voam, a fauna alada. Fiquei imóvel, calculando desordenadamente. Estava atenta, eu estava toda atenta. Em mim um sentimento de grande espera havia crescido, e uma resignação surpreendida: é que nesta espera atenta eu reconhecia todas as minhas esperas anteriores, eu reconhecia a atenção de que também antes vivera, a atenção que nunca me abandona e que em última análise talvez seja a coisa mais colada à minha vida - quem sabe aquela atenção era a minha própria vida. Também a barata: qual é o único sentimento de uma barata? a atenção de viver, inextricável de seu corpo. Em mim, tudo o que eu superpusera ao inextricável de mim, provavelmente jamais chegara a abafar a atenção que, mais que atenção à vida, era o próprio processo de vida em mim. Foi então que a barata começou a emergir do fundo.Antes o tremor anunciante das antenas. Depois, atrás dos fios secos, o corpo relutante foi aparecendo. Até chegar quase toda à tona da abertura do armário. Era parda, era hesitante como se fosse enorme de peso. Estava agora quase toda visível. Abaixei rapidamente os olhos. Ao esconder os olhos, eu escondia da barata a astúcia que me tomara - o coração me batia quase como numa alegria. É que inesperadamente eu sentira que tinha recursos, nunca antes havia usado meus recursos - e agora toda uma potência latente enfim me latejava, e uma grandeza me tomava: a da coragem, como se o medo mesmo fosse o que me tivesse enfim investido de minha coragem. Momentos antes eu superficialmente julgara que meus sentimentos eram apenas de indignação e de nojo, mas agora eu reconhecia - embora nunca tivesse conhecido antes - que o que sucedia é que enfim eu assumira um medo grande, muito maior do que eu.
[...]

Seus textos trazem como temas mais comuns: a relação entre o bem e o mal, a culpa, o crime, o castigo e o pecado. Em seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem, a autora despertou estranheza e admiração em alguns críticos, justamente porque sua obra não se encaixava em qualquer programa dos modernistas, muito menos dos regionalistas do período anterior.

  
Como referenciar: "Clarice Lispector" em Só Literatura. Virtuous Tecnologia da Informação, 2007-2019. Consultado em 16/07/2019 às 07:31. Disponível na Internet em http://www.soliteratura.com.br/modernismo/modernismo21.php