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Autores modernistas da terceira fase

Guimarães Rosa

João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo (MG), em 27 de junho de 1908, filho de comerciantes do centro-norte de Minas. Foi contista, romancista, poeta, médico e diplomata.

Cursou Medicina pela Universidade de Minas Gerais, formando-se em 1930. Pelo período de dois anos, exerceu a profissão de médico na cidade de Itaguara, no interior mineiro, o que lhe possibilitou conhecer o cotidiano dos sertanejos, que retratou mais tarde em seus contos, novelas e no romance Grande Sertão: Veredas. Foi diplomata e embaixador, representando o Brasil em diversos países.


Guimarães Rosa, Cordisburgo (MG), 1908 - 1967


Guimarães Rosa e esposa em Hamburgo (Alemanha)

No ano de 1937, recebeu prêmio da Academia Brasileira de Letras (ABL) por seu único volume de poesia, Magma, que o autor manteve inédito, a primeira edição, póstuma, foi publicada em 1997.

Ainda no ano de 1937, participou de outro concurso com a sua coletânea de contos Sagarana, onde obteve a segunda colocação. Após revisão pelo autor e publicado em 1946, recebeu várias premiações, sendo considerado atualmente uma das obras mais importantes da ficção brasileira do século XX.

A obra A Hora e a Vez de Augusto Matraga, pertencente a esse volume, foi adaptada para o cinema no ano de 1965. Em 1961, Guimarães Rosa recebeu o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra literária. Recebeu também o Prêmio Filipe d'Oliveira pelo livro Sagarana (1946); o Prêmio Carmen Dolores Barbosa (1956) e o Prêmio Paula Brito (1957); Primeiras estórias recebeu o Prêmio do PEN Clube do Brasil (1963).


Obra Sagarana

No ano de 1963, foi eleito para a ABL por unanimidade. Porém, supersticioso, receando a morte no momento da cerimônia, adiou o ritual de posse por quatro anos, vestindo o fardão apenas em 16 de novembro de 1967. Guimarães Rosa morreu três dias depois, em 19 de novembro, vítima de um enfarte, no Rio de Janeiro, aos 59 anos.


Guimarães Rosa em seu discurso de posse

Guimarães Rosa é considerado um dos maiores escritores da literatura brasileira e ocidental.

Principais obras

Romances: Grande Sertão: Veredas (1956).


Obra Grande Sertão: Veredas

Contos: Sagarana (1946); Corpo de Baile (1956); Primeiras Estórias (1962); Tutaméia – Terceiras Estórias (1967); Estas Estórias (1969); Ave, Palavra (1970).


Obra Primeiras estórias

Poesia: Magma (1997).


Obra Magma

Vale a pena saber mais:

As obras de Guimarães Rosa são caracterizadas pela preocupação com a linguagem, onde o autor utiliza a oralidade da linguagem regional, termos coloquiais típicos do sertão e, a partir do uso de neologismos, arcaísmos (palavras que já estão praticamente em desuso), uso de outras línguas e exploração de novas estruturas sintáticas, recria a linguagem com palavras  como "refrio", "retrovão", "levantante", "desfalar", entre outras, ou utilizando frases como: "os passarinhos que bem-me-viam", "e aí se deu o que se deu – o isto é".

Observe um fragmento do conto O burrinho Pedrês, onde Guimarães Rosa narra, salientando a poesia, o ritmo e as mudanças de sua linguagem, onde o autor intercala quadrinhas populares cantadas pelos vaqueiros. Este conto pertence ao livro Sagarana, de 1946.

"As ancas balançam, e as vagas de dorsos, das vacas e touros, batendo com as caudas, mugindo no meio, na massa embolada, com atritos de couros, estralos de guampas, estrondos e baques, e o berro queixoso do gado junqueira, de chifres imensos, com muita tristeza, saudade dos campos, querência dos pastos de lá do sertão...

'Um boi preto, um boi pintado,
cada um tem sua cor.
Cada coração um jeito
De mostrar o seu amor.'

Boi bem brabo, bate baixo, bota baba, boi berrando... Dança doido, dá de duro, dá de dentro, dá direito... Vai, vem, volta, vem na vara, vai não volta, vai varando...

'Todo passarinh' do mato
tem seu pio diferente.
Cantiga de amor doído
Não carece ter rompante...'"

Na obra Sagarana, o sertão surge não mais dentro da tradição regionalista, mas universalizado, repleto de mitos e questionamentos sobre a luta entre o bem e o mal, entre Deus e o Diabo, morte, destino e amor. A essa obra, seguiu-se o ciclo de novelas de Corpo de baile, de 1956 que, a partir da terceira edição, originou três volumes independentes: Manuelzão e Miguilim, No Urubuquaquá, no Pinhém e Noites do sertão.


Obra Manuelzão e Miguilim

Sua obra de maior destaque é o romance Grande sertão: veredas. A obra demonstra extremo cuidado com a linguagem e uma excepcional beleza dramática.

Observe o fragmento:
[...]
Eu dizendo que a Mulher ia lavar o corpo dele. Ela rezava rezas da Bahia. Mandou todo o mundo sair. Eu fiquei. E a Mulher abanou brandamente a cabeça, consoante deu um suspiro simples. Ela me mal-entendia. Não me mostrou de propósito o corpo. E disse...
Diadorim – nu de tudo. E ela disse:
– "A Deus dada. Pobrezinha..."
E disse. Eu conheci! Como em todo o tempo antes eu não contei ao senhor – e mercê peço: – mas para o senhor divulgar comigo, a par, justo o travo de tanto segredo, sabendo somente no átimo em que eu também só soube... Que Diadorim era o corpo de uma mulher, moça perfeita... Estarreci. A dor não pode mais do que a surpresa. A coice d'arma, de coronha...
Ela era. Tal que assim se desencantava, num encanto tão terrível; e levantei mão para me benzer – mas com ela tapei foi um soluçar, e enxuguei as lágrimas maiores. Uivei. Diadorim! Diadorim era uma mulher. Diadorim era mulher como o sol não acende a água do rio Urucúia, como eu solucei meu desespero.
O senhor não repare. Demore, que eu conto. A vida da gente nunca tem termo real.
Eu estendi as mãos para tocar naquele corpo, e estremeci, retirando as mãos para trás, incendiável; abaixei meus olhos. E a Mulher estendeu a toalha, recobrindo as partes. Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca. Adivinhava os cabelos. Cabelos que cortou com tesoura de prata... Cabelos que, no só ser, haviam de dar para baixo da cintura... E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo:
– "Meu amor!..."
Foi assim. eu tinha me debruçado na janela, para poder não presenciar o mundo.

[...]
  
Como referenciar: "Guimarães Rosa" em Só Literatura. Virtuous Tecnologia da Informação, 2007-2019. Consultado em 19/09/2019 às 16:01. Disponível na Internet em http://www.soliteratura.com.br/modernismo/modernismo20.php