Você está em Material de apoio > Modernismo

Autores modernistas da segunda fase (continuação)

Jorge Amado

Jorge Amado de Faria nasceu em 1912, em Ferradas, hoje município de Itabuna, na Bahia. Foi jornalista, romancista e memorialista.

Era filho do fazendeiro de cacau João Amado de Faria e de Eulália Leal Amado. Estudou em Ilhéus, Salvador e Rio.

Ainda jovem começou a trabalhar em jornais e a participar da vida literária, sendo um dos fundadores da "Academia dos Rebeldes", uma das primeiras manifestações de oposição ao Modernismo, no nordeste.


Jorge Amado, Itabuna (Bahia) – 1912-2001

No ano de 1930, mudou-se para o Rio de Janeiro para cursar a faculdade de Direito. Neste período, colaborou em jornais, fez parte de grupos literários e publicou, em 1931, O País do Carnaval, obra que o tornou conhecido. No entanto, a notoriedade ocorreu com os dois romances seguintes: Cacau (1933) e Suor (1934).


Obra O País do Carnaval

No ano de 1932, Jorge Amado é apresentado por Rachel de Queiroz aos grupos políticos de esquerda e, ao participar do movimento de frente popular da Aliança Nacional Libertadora, nos anos de 1936 e 1937 conheceu as angústias e sofrimentos da prisão. Perseguido, buscou exílio em Buenos Aires, Argentina, de 1941 a 1943, período em que publicou a biografia de Carlos Prestes e escreveu Terras do Sem Fim.


A partir da esquerda: Waldemar Cavalcanti, José Auto, Jorge Amado, Rachel de Queiroz e Alberto Passos Guimarães (1933)

No ano de 1945, candidatou-se e foi eleito deputado federal pelo Partido Comunista Brasileiro. Neste mesmo ano conheceu Zélia Gattai, com quem teve dois filhos.


Jorge Amado e sua esposa, Zélia Gattai

A partir de 1947, deixou o país por alguns anos para residir na França e em vários países socialistas da Europa. Como escritor profissional, viveu exclusivamente dos direitos autorais de seus livros.


Jorge Amado - escritor profissional

 Em 6 de abril de 1961, foi eleito como quinto ocupante da Cadeira 23 na Academia Brasileira de Letras.


Jorge Amado na Academia Brasileira de Letras

Jorge Amado recebeu inúmeros prêmios e títulos literários, nacionais e internacionais. Entre eles destaca-se o Prêmio Camões (1995), pelo conjunto da obra e, em sua última viagem a Paris, em 1998, recebeu o título de doutor honoris causa pela Universidade de Sorbonne.


Jorge Amado recebendo prêmio, em 1976

Principais obras


Coletânea de capas das obras de Jorge Amado

Romance

Primeira fase: O País do Carnaval (1930); Cacau (1933); Suor (1934); Jubiabá (1935); Mar morto (1936); Capitães da areia (1937); Terras do Sem-Fim (1943); São Jorge dos Ilhéus (1944); Seara vermelha (1946); Os subterrâneos da liberdade (1954);

Segunda fase: Gabriela, cravo e canela (1958); A morte e a morte de Quincas Berro d'Água (1961); Os velhos marinheiros ou o capitão de longo curso (1961); Os pastores da noite (1964); O Compadre de Ogum (1964); Dona Flor e Seus Dois Maridos (1966); Tenda dos milagres (1969); Teresa Batista cansada de guerra (1972); Tieta do Agreste (1977); Farda, fardão, camisola de dormir (1979); Tocaia grande (1984); O sumiço da santa (1988); A descoberta da América pelos turcos (1994).


Obra Gabriela Cravo e Canela


Obra Gabriela Cravo e Canela adaptada para cinema

Poesia: A estrada do mar (1938).

Biografia: ABC de Castro Alves (1941); O cavaleiro da esperança (1942).


Obra O cavaleiro da esperança

Guia: Bahia de Todos os Santos (1945).


Publicação de Bahia de Todos os Santos

Teatro: O amor do soldado (1947).


Publicação de O amor do soldado

Viagens: O mundo da paz (1951).


Publicação de O mundo da paz

Memórias: O menino grapiúna (1982); Navegação de cabotagem (1992).


Obra O menino grapiúna

Infantil-Juvenil: O gato Malhado e a andorinha Sinhá (1976); A bola e o goleiro (1984).


Obra O gato Malhado e a andorinha Sinhá

Fábula: O milagre dos pássaros (1997).


Obra O milagre dos pássaros.

Crônica: Hora da Guerra (2008).

Vale a pena saber mais:

As obras de Jorge Amado, ambientadas na Bahia, são fartas e possuem sintonia com o gosto popular, apresentando um estilo próprio com linguagem lírica e simples.

Seus romances mostram os problemas e a vida das classes menos favorecidas de Salvador. Seus personagens típicos são os homens do cais do porto, menores abandonados, pais de santo, prostitutas, mascates, capoeiristas e malandros. Jorge Amado também retratou costumes populares e as festas populares.

Suas produções são divididas em duas fases.

A primeira fase apresenta como características:

  • A imaginação criativa, onde personagens e acontecimentos surgem e desaparecem freneticamente;
  • A generosidade humana, onde o autor põe-se ao lado dos menos favorecidos (pobres, marginais e especialmente os negros, que no período de 1930 e 1940 eram repudiados pelas elites brasileiras);
  • Conhecimento, aparentemente inesgotável, das formas de vida das camadas populares (costumes, ofícios, modo de ser e agir, religiosidade e estratégias de sobrevivência do povo baiano);
  • Valor documental de seus registros (sociedade cacaueira e cultura afro-brasileira);
  • Capacidade de criar tipos humanos primitivos (seres psicologicamente rústicos, que viviam de acordo com suas emoções e instintos);
  • Obscenidade na linguagem e nos atos de seus personagens (por muitos confundido com pornografia), carregado de palavrões e com função erótica, como protesto literário contra os falsos pudores e moralismos das classes mais privilegiadas.
  • Personagens originários do povo.

Observe este fragmento de Terras do Sem Fim (1943), onde o autor descreve a cidade de Ilhéus, cenário e tipos humanos onde se desenrola a ação do livro.

Terras do Sem Fim
A exploração do cacau trouxe para a região de Ilhéus, no sul da Bahia, o desenvolvimento e com este os mais diversos tipos humanos que ali aportavam, atraídos pelas histórias de terras férteis e dinheiro em abundância. Para todos, que chegavam, Ilhéus era a primeira ou a última esperança.
Dentre as pessoas vindas de longe, iludidas por essa febre, encontravam-se, no mesmo navio, o lavrador Antônio Vítor que sonhava com uma roça de cacau só sua, o aventureiro João Magalhães, jogador de cartas trapaceiro e falso engenheiro militar, que se via ganhando muito dinheiro no carteado, graças ao "azar" dos velhos coronéis milionários, e a prostituta Margot que deixara Salvador para encontrar o amante, o advogado Dr.Virgílio que, na esperança de riqueza fácil, já se encontrava em Ilhéus, esperando colocar seu conhecimento de leis a serviço da ambição dos coronéis.
Após o desembarque, encontraram em Ilhéus e vilarejos adjacentes: Ferradas e Taboca, sociedades em formação, conturbadas pela ganância dos poderosos, onde a lei era a dos mais fortes e corajosos, tornando-se por isso selvagens e violentas. Depararam-se com o conflito entre dois grandes latifundiários: o Coronel Horácio e a família Badaró que, em busca de expansão do patrimônio e força política, lutavam pela posse das matas do Sequeiro Grande, que ficavam entre as duas propriedades.
[...]

A segunda fase apresenta como características:

  • Personagens de origem popular. No entanto, nesta fase são os representantes da classe que enfrentam as agruras da vida com fibra, determinação, alegria, autenticidade e solidariedade.
  • A luta dos personagens é contra valores morais, preconceitos raciais e sociais, hipocrisia sexual, fanatismo e presunção, sobretudo da pequena burguesia.
  • Esforço pela liberação dos instintos e detrimento do amor livre e espontâneo.
  • Visão humorística da realidade, onde o riso é mostrado como forma de resistência popular.
  • Utilização de elementos do folclore e da tradição religiosa negra, elementos da mitologia do candomblé, que é valorizada.
  • Uso de pornografia leve e ironia.

Observe estes fragmentos da obra Gabriela, cravo e canela, de 1958:

Naquela manhã, muitas coisas ocorreram em Ilhéus, fazendo a cidade fervilhar. Quando estava para atracar no porto, o Ita encalhou na areia, ficando ali horas. Dizia-se, com veemência que a falta de um porto decente era um despropósito para uma cidade daquele porte. Além da costumeira leva de comerciantes e aventureiros, o navio trazia de volta o exportador de cacau, Mundinho Falcão que tinha ido ao Rio para ver a família e fazer contatos políticos. Era solteiro e, como a maioria das pessoas, viera para Ilhéus em busca de fortuna. Além disso, queria tentar esquecer um grande amor.
A notícia do assassinato de um casal de jovens correu rápido como um relâmpago pela preconceituosa cidade. Naquela manhã, o coronel Jesuíno flagrou sua esposa, Sinhazinha, na cama com o dentista, Dr. Osmundo, matando-os em seguida. Comentava-se e discutia-se calorosamente a tragédia dos dois apaixonados; divulgavam-se versões da sociedade, opunham-se detalhes, mas com uma coisa todos concordavam: o gesto macho do coronel era constantemente louvado. Para a provinciana Ilhéus, honra de homem enganado, só o sangue poderia limpar. Na busca de razões, os mais conservadores diziam que o vilão de tudo isso era o clube Progresso com seus bailes. [...]
[...]  Entre os retirantes notou uma mulher em trapos miseráveis, pés imundos descalços e cabelos desgrenhados. Estava tão suja que não se podia ver-lhe as feições ou dar-lhe a idade; respondeu que se chamava Gabriela e que sabia fazer de tudo. Mesmo achando que não era verdade, Nacib levou-a consigo, para experimentar o seu serviço. Quando chegaram em casa, mostrou-lhe os aposentos e o quarto onde ela ficaria. Antes de sair, mandou que tomasse um bom banho; iria ao bar e depois acabaria a noite no Bataclan, onde estava de xodó com Risoleta. [...]

Jorge Amado teve suas obras adaptadas para o cinema, o teatro, o rádio, a televisão e em histórias em quadrinhos, não só no Brasil, mas também foram traduzidos para 49 idiomas, além de exemplares em braile e em formato de audiolivro. Sua vida e obra também serviram de inspiração para tema de escolas de samba em várias partes do Brasil.


Jorge Amado

Jorge Amado faleceu em 6 de agosto de 2001, na cidade de Salvador, Bahia. Foi cremado, de acordo com sua vontade, e suas cinzas foram enterradas no jardim de sua residência, no dia em que completaria 89 anos.

  
Como referenciar: "Jorge Amado" em Só Literatura. Virtuous Tecnologia da Informação, 2007-2019. Consultado em 21/09/2019 às 08:00. Disponível na Internet em http://www.soliteratura.com.br/modernismo/modernismo16.php